segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Um Papo com IVAN LINS


São 36 anos de uma carreira fonográfica pontuada por inúmeros sucessos, tanto no Brasil quanto em outros países, com 37 discos e dois DVDs gravados. IVAN LINS é hoje um dos mais conhecidos e respeitados compositores brasileiros, admirado por nomes como Quincy Jones, Barry Manilow e Diana Krall, apenas para citar alguns. Carioca de nascimento, é cidadão do mundo, título conferido pela história que fez e faz na Música.

Assumindo definitivamente o controle total dos destinos da carreira e sem qualquer vínculo com gravadora, o músico lança, com distribuição licenciada para a Indie Records, o CD e DVD Saudades de Casa, onde mostra os ensaios para a turnê que realizou no segundo semestre de 2007 pela Ásia.

Conversamos na última terça-feira, por telefone. Eu em São Paulo, ele no Rio. Em um longo e divertido papo, Ivan falou do novo trabalho, do quanto é importante para o artista ter independência, de novas tecnologias e comentou fatos ocorridos ao longo da carreira. Saboreie:


TONINHO SPESSOTO – Saudades de Casa é um trabalho totalmente independente, apenas com distribuição da Indie Records. Você acredita que conseguiria realizá-lo se estivesse sob contrato com uma gravadora?
IVAN LINS
– Nunca! Nenhuma gravadora toparia lançar um CD e DVD desses, mostrando o ensaio de um artista, por mais que ele fosse conhecido. As companhias hoje querem soluções rápidas para ganhar dinheiro, não pensam mais em Arte, apenas em lucro. Claro que têm de sobreviver, mas abandonaram de vez a qualidade. E eu não me sujeito a isso.

Toninho – Aliás, nunca se sujeitou…
Ivan
– Exatamente. Meus três primeiros discos, Ivan Lins… Agora, Deixa o Trem Seguir e Quem Sou Eu?, lançados pela Philips em 1971, 72 e 73, foram feitos em clima de cabo-de-guerra. A gravadora queria me transformar num ídolo pop e eu dizia que se tivesse de dar certo como artista, seria do meu jeito.

Toninho – No final, você se tornou um artista popular sem abrir mão da essência, mantendo a integridade…
Ivan
– Se fosse de outra forma, não seria artista. Temos que ser sempre coerentes com o que pensamos, com o que queremos, concorda?


Toninho – Mas a idéia do novo projeto surgiu recentemente ou quando você ainda tinha vínculo com gravadora?
Ivan
– Surgiu com a independência. Quando me livrei de vínculos com gravadoras e me dei conta de que poderia fazer o que bem entendesse, vieram muitas idéias, entre elas a de mostrar como rola um ensaio.

Toninho – E os convidados, como foram selecionados?
Ivan
– Os convidados entraram para dar um colorido a mais, tornar o produto ainda mais atraente do ponto de vista comercial. Claro que Chico Buarque, Leila Pinheiro ou Daniel Gonzaga não iriam para a turnê comigo, por mais que eu adorasse a idéia. Mas tê-los no DVD já foi um presentaço…

Toninho – E todos com enorme valor afetivo…
Ivan
– Ah, sem dúvida. Cantar com o Claudio Lins, meu filho, é uma emoção indescritível. E fazer Depende de Nós, canção que marcou a infância dele, é maravilhoso. Leila é uma amiga querida, de muitos anos. Adoro ouvi-la cantar minhas canções. Aliás, foi por intermédio dela que eu e Chico nos tornamos parceiros e fizemos Renata Maria. Não poderíamos cantar outra canção que não essa. Adoraria compor mais com ele… O Celso Viáfora é meu irmão, é meu parceiro mais constante nos dias de hoje. Temos uma sinergia incrível, e Emoldurada é uma das minhas canções favoritas. O Hamilton de Holanda é um dos melhores bandolinistas do mundo. Tê-lo participando do Saudades de Casa foi uma honra, ele arrasou em Ser Feliz. E o Daniel Gonzaga eu vi crescer. Filho do meu querido Gonzaguinha, esse menino tem um talento extraordinário! Debruçada foi a primeira parceria minha com o pai dele, feita nos tempos em que éramos do MAU, Movimento Artístico Universitário. Queríamos mudar o mundo através da música. Pelo menos, a música ficou… (risos)

Toninho – Quando começou a produzir o trabalho, a idéia era basear o repertório no disco Acariocando, de 2006?
Ivan
– A coisa tomou esse rumo de modo natural. Quis mostrar canções mais novas mesmo, mas sem deixar de incluir sucessos como Depois dos Temporais, Saindo de Mim, Daquilo Que Eu Sei, Depende de Nós, Formigueiro. E há uma inédita, Boa Nova, bolero que fiz com o Celso Viáfora.


Toninho – Você tem grandes pretensões comerciais com Saudades de Casa?
Ivan
– Na verdade não. É um ítem de colecionador, e pretendo ter vários daqui por diante, sou dono do meu próprio nariz, graças a Deus. Antes o artista ficava totalmente atrelado aos desígnios financeiros e comerciais das gravadoras, os contratos nos obrigavam a fazer um disco por ano, e não adiantava reclamar. Tínhamos que fazer e pronto! Mas o disco é o verdadeiro cartão de visitas do artista, o instrumento pelo qual ele pode mostrar todas as suas facetas, mostrar o que pode fazer através da criatividade. E isso não combina com amarras, com contratos leoninos.

Toninho – Estamos num tempo de mudança na indústria musical, muito se discute sobre a sobrevivência deste ou daquele formato. Como você vê essa questão tecnológica?
Ivan
- Vivemos um processo incerto, ainda não há uma definição do que virá, mas você já pode se comunicar com o planeta, pode colocar ao crivo do gosto do público o que realmente sabe fazer. A internet nos dá agilidade, nossa música chega a qualquer canto do planeta de modo instantâneo, se quisermos. Antes, fechar contratos de representação era uma operação de guerra. A internet tornou tudo muito mais rápido.

Toninho – Esse avanço todo te deixa otimista?
Ivan
- Bastante otimista, virá um caminho positivo para a música, ela tem que andar rápido, as pessoas precisam de coisas boas.

Toninho – A chamada mídia física está com os dias contados?
Ivan
– O mercado caminha para a extinção do CD enquanto mídia física. No primeiro mundo isso acontecerá antes, mas acho que no terceiro irá demorar bastante, ainda não há poder aquisitivo para as pessoas adquirirem maciçamente outras formas de armazenamento de informação musical, como os iPods, por exemplo. E tampouco há essa cultura. Mas a mudança definitiva certamente virá, mais cedo ou mais tarde, e chegará ao Brasil.

Toninho – Voltando à questão do mercado independente, uma das primeiras iniciativas bem sucedidas foi a Velas
Ivan
– Sim, o Vitor (Martins), o saudoso Paulinho (Albuquerque) e eu, quando decidimos criar a Velas, estabelecemos que seria uma companhia com rumos próprios. E conseguimos. Por lá passaram artistas como Rosa Passos, Pena Branca e Xavantinho, Zizi Possi, Beth Carvalho, tanta gente que entendeu e apostou no nosso compromisso. E a gravadora está aí, mesmo com todas as dificuldades do mercado, graças à tenacidade do Vitor.


Toninho - Por falar em Velas, está sendo reeditada Viva Noel, coleção com 3 CDs que você gravou em 1997 por ocasião dos 60 anos da morte do Poeta da Vila...
Ivan
- Acho muito bacana a Velas relançar esse material, agora que são passados 70 anos sem Noel. É um trabalho de catálogo, para ficar pra sempre. Assim como Um Novo Tempo, o disco de Natal que fiz na Abril Music.

Toninho - A passagem pela Abril Music foi produtiva?
Ivan
- Sem dúvida, fiz discos ali dos quais me orgulho muito, como Um Novo Tempo, Jobiniando, A Cor do Por-do-Sol. Sempre me dei muito bem com o Marcos Maynard, que era presidente da gravadora. Ele foi corretíssimo comigo, o trabalho fluiu numa boa.

Toninho - A quem pertencem as matrizes dos CDs que você gravou na Abril Music?
Ivan
- O material é meu, licenciei em 2005 para a EMI, quando lancei por lá o CD e DVD Cantando Histórias. Mas agora tudo está voltando pra mim. Quero reeditar os discos, estou estudando a melhor forma.

Toninho – Como está o relacionamento com o Vitor Martins hoje?
Ivan
– Muito bem, voltamos a compor juntos desde o Baiana da Gema, que a Simone fez com músicas minhas há quase quatro anos. Tivemos um período de afastamento, por conta da minha saída da Velas, que não foi muito bem compreendida por ele. Mas agora está tudo resolvido.

Toninho – Você sempre foi contundente, o que lhe valeu alguns problemas com gravadoras…
Ivan
– Pois é, como eu disse, a saída da Philips foi conturbada. Em 1974, quando diminuí o meu ritmo de parcerias com o Ronaldo Monteiro de Souza e passei a trabalhar praticamente só com o Vitor Martins e fui para a RCA, onde estreei com Modo Livre. No ano seguinte, a coisa começou a azedar, a gravadora veio com aquela história de me fazer um ídolo popular, teve diretor artístico metendo o bedelho. Aí, depois do Chama Acesa, caí fora.


Toninho – O trabalho de 1977, Somos Todos Iguais Nessa Noite, estréia na Odeon, foi algo totalmente inovador, um marco na música popular brasileira. Como nasceu aquele disco?
Ivan
– Estava numa fase difícil, minha saída da RCA foi tumultuada, Chama Acesa não vendeu nem três mil cópias. Tive que ir para a publicidade. Trabalhei em 75 e 76 na Zurana, produtora do Paulo Sérgio Valle e do Tavito. Essa experiência foi fantástica, me incentivou ainda mais a compor. Em 1977, quando fui para a Odeon, estava num dos mais férteis surtos criativos da minha vida. Aliás, estou criando sempre, mas naquela época eu tinha muita coisa entalada na garganta, assim como o Vitor. Explorei com profundidade ritmos brasileiros, experiência apreendida nos tempos de Zurana com a criação de jingles regionais. E o Vitor fez letras afiadíssimas, desafiadoras ao regime político. Somos Todos Iguais Nessa Noite é um dos trabalhos de que mais gosto, ali estão canções que marcaram e seguem sendo importantes, como Quadras de Roda, Dinorah, Dinorah, Somos Todos Iguais Nessa Noite… Minha fase na Odeon, onde fiz esse disco e também Novo Tempo, A Noite e Nos Dias de Hoje, é uma das mais ricas.

Toninho – Você sempre se interessou por artistas novos. Quem chama sua atenção hoje em dia?
Ivan
– Há cantoras maravilhosas como Roberta Sá, Fabiana Cozza e Mariana Aydar, com quem tive o privilégio de cantar Desesperar Jamais, no Cidade do Samba, projeto do Zeca Pagodinho. Tem também o Casuarina, grupo de samba do Rio que é espetacular. E o Daniel Gonzaga, que vem aí com um trabalho lindo sobre a obra do pai.


Toninho – O Folia de 3, formado pelas cantoras Marianna Leporace, Cacala Carvalho e Eliane Tassis, gravou em 2005 um CD em homenagem aos seus 60 anos, Pessoa Rara. O que achou do resultado?
Ivan
– Maravilhoso! Fiquei emocionadíssimo ao ver que gente nova se interessa pela minha obra. E a qualidade da Marianna, da Cacala e da Eliane é fenomenal, elas formam um dos melhores grupos vocais em atividade.

Toninho – E dos nomes mais conhecidos, quais os que você não deixa de ouvir?
Ivan
– É impossível deixar de ouvir Simone, Nana Caymmi, Pery Ribeiro, Leny Andrade, Elia Regina. São aulas constantes de boa música e sensibilidade.

Toninho – Vai fazer turnê de lançamento do Saudades de Casa?
Ivan
– Sim, a idéia é cair na estrada logo após o Carnaval. Estou elaborando a estrutura junto a uma empresa que trabalha em gestão de carreira. A estrutura de shows mudou muito, é imprescindível para um artista independente ter uma assessoria desse tipo. Quero correr todo o Brasil e viajar para outros países.

Toninho – Tem outros projetos engatilhados?
Ivan
– Vários! Quero fazer um disco com canções de outros autores, um trabalho de intérprete. E estou começando a preparar um com temas instrumentais inéditos mesclados a outros pouco conhecidos, todos de minha autoria. E pode pintar em breve uma maluquice que estou bolando com o compositor Rafael Altério, um disco sertanejo que sairá creditado à dupla Fioravante e Guimarães, que são nossos sobrenomes. São coisas que só a independência nos permite!

Fotos Ivan Lins: Bruno Veiga
Foto Ivan Lins & Folia de 3: Ana Paula Oliveira


Site oficial: www.ivanlins.com.br

4 comentários:

Danny Reis disse...

Muito boa a entrevista, Toninho!
Adorei saber sobre os novos projetos, sobre o DVD (que ainda não assisti, mas estou querendo agora)... E relembrar "Depende de nós", que marcou a minha infância também (além da do Claudio Lins)!
Até postei essa letra no meu fotolog. Passa lá depois!
Beijos!

TONINHO SPESSOTO disse...

Anjo,
Que coisa boa você ter gostado da entrevista!
Quanto ao teu blog, a maravilha de sempre!
Beijos!!!

Angel disse...

Toninho, obrigada por essa entrevista com uma pessoa tão experiente e um assunto tão iminente!
Adorei... Pequenininha, cantava Ivan lins com o Conrado ao violão... "corpo folha " era minha predileta!!!! Eu já era esquisitinha, né? Como uma menininha podia gostar de letras e músicas desse tamanho???? kkkk
Bjs, querido, parabéns pelo trabalho.
Angel

Patricia Ingo Tendrich disse...

Tratante!! Vc é tudo!! Este blog está o maximo!!! Vc é minha inspiração!! obrigada pelo carinho de sempre!!!
bjs